| S | T | Q | Q | S | S | D |
|---|---|---|---|---|---|---|
| 1 | ||||||
| 2 | 3 | 4 | 5 | 6 | 7 | 8 |
| 9 | 10 | 11 | 12 | 13 | 14 | 15 |
| 16 | 17 | 18 | 19 | 20 | 21 | 22 |
| 23 | 24 | 25 | 26 | 27 | 28 | 29 |
| 30 | 31 |
Estava em pé há dezoito minutos e cinco segundos. Já tinha contado quantos passos dava o comprimento e a largura da sala e achado a área do retângulo. Com uma estimativa da altura, calculara o volume. Sabia de cor todos os livros da estante e anotou o nome de um para que pudesse comprar depois. As revistas espalhadas numa mesinha foram conferidas nos primeiros momentos em que pisara ali, assim como foram definidos o grupo, a família e a espécie da simples flor que estava junto deles. Na sua cabeça, perduravam duas listas que acabara de fazer: o que deveria comprar no mercado, e o que tinha ficado pendente no trabalho. Estava de costas para a porta, pensando nos outros quadros do artista que tinha pintado aquela singela paisagem, quando a porta se abriu:
- Descobriu o que tenho? – perguntou – Continuo com a dor nas pernas, na barriga e na cabeça. Os exames deram algo?
- Já descobri, mas não foi necessário nenhum exame. Conversei com a sua esposa, que chegou há poucos minutos. Ela me explicou que você não dorme, pois estuda de madrugada, por isso sua cabeça dói. Suas pernas estão doloridas, porque você economiza no vale-transporte e faz tudo a pé. Como você é aficionado pelo seu trabalho, se esquece de comer e de beber água. As dores abdominais, com quase 100% de certeza, indicam infecção urinária e úlcera. Mas não vou te indicar nenhum remédio, porque, para o seu excesso de problemas, há apenas uma doença: excesso de motivação.
Pela primeira vez no dia, sentou-se:
- É... Pode ser.
José Eduardo Brum

criado por Hipocondríacos
20:16:20Há um ano ele fora ao médico e o diagnóstico: hipocondria. Saiu de perto de tudo e de todos, não queria contaminar ninguém. Isolou-se em casa e o resto era só internet, pelo menos até encontrar vírus. Depois, só telefone, mas em noites com chuva nem pensar: telefone sem fio é pára-raios.
Medicou-se devidamente, seguiu as orientações telefônicas do médico e voltou ao consultório, depois de muita insistência, de manhã. Conversou, entregou alguns resultados de exames e fez outros. Diagnóstico: curado.
De volta pra casa, comprou bolo, brigadeiro, cajuzinho, refrigerante, coxinha, cigarrete e quibe para comemorar. Arrumou tudo na mesa, coberta com a melhor toalha, trancou a porta e desligou o telefone. Era uma vitória dele, um conquista pessoal. Acendeu a vela e cantou parabéns.
Ao final do último verso pensou: isso só será possível se começar a tomar remédios amanhã para baixar o colesterol. E comeu daquela vez como se fosse a última (nunca se sabe).
Gustavo Burla

criado por Hipocondríacos
23:44:34
criado por Hipocondríacos
22:36:40Não podia olhar para frente. Deveria permanecer sempre ereta com a vista voltada para frente. O marido não deixava que ela visse nada no caminho. Aos poucos, conseguia perceber quando ele não a estava vigiando e mirava uma paisagem que nunca visitaria, um carro que nunca possuiria ou uma roupa que nunca vestiria. Mas quando o garoto do último banco passou mal, virou-se rapidamente para verificar se tinha sido atingida. Nesse mesmo instante, a van parou repentinamente, e todos os passageiros foram projetados contra o que estava adiante. Por azar, batera no banco da frente com a cabeça, no mesmo local onde, horas antes, seu marido havia lhe dado quatro murros seguidos, porque a blusa não estava bem passada.
No entanto, por sorte (ou castigo) seu marido fora atingido em cheio. Queria rir, mas não podia. Sabia que, mais tarde, ele a espancaria como se ela tivesse culpa, mas sentia-se vingada. E também caberia a ela limpar a porcaria. Nesses momentos, percebia a existência de Deus. Ele batia nela todos os dias, e nas apostas (que fazia clandestinamente para que o pastor não descobrisse) sempre perdia. Ele a chutava quando dava vontade, e sempre voltava do futebol mais roxo do que uma beterraba. Tapas eram sua forma de demonstrar amor, mas no trabalho era tapeado por todos, já que fazia as tarefas não-pertencentes a ele.
Todos os passageiros foram saindo, e ela sabia que tinha de ficar. Ele não permitiria que sua esposa socializasse. Um olhar foi suficiente para que houvesse o entendimento. Lá fora, uns discutiam, outros reclamavam. Poucos acudiam o pobre garoto, e ninguém prestava atenção no motorista que falava ao telefone sem saber o que fazer com uma van suja e com um cheiro insuportável.
Ela permanecia no lado da van, podendo pela primeira vez virar o pescoço, observar as casas e os curiosos que chegavam. O odor não a incomodava. Seu marido já havia feito com que ela passasse por coisas piores. A própria mãe achava uma injustiça, dizia que a filha deveria acusá-lo pelas agressões. Quantas vezes ela teve hemorragia interna por causa das surras? Até vários bebês havia perdido por culpa dele, e nunca mais poderia conceber. Não podia fazer nada, era seu marido. Haveria uma forma de ela modificar isso e conseguir a liberdade?
Sim, existia, e ela foi colocada em prática. Anos mais tarde, a mesma van levou parentes do marido para o funeral do mesmo. Havia morrido aos poucos como se a cólera de Deus tivesse chegado devagarzinho e se desenvolvido mansamente. Perdera as funções vitais, seus órgãos não funcionavam como deviam, e ninguém do hospital publico descobriu. Ou suspeitou. Ela o envenenou aos poucos, sentindo-o sofrer por cada tapa, soco e ponta-pé. Bobo, nunca desconfiou.
Depois disso, menos de um ano, passou a andar no banco da frente da van, captando tudo o que via sem se importar com nada. Casara-se com o motorista da van. Por ironia, os olhares de interesse começaram a ser trocados, enquanto ela enterrava o marido maldito.
José Eduardo Brum

criado por Hipocondríacos
10:07:58Não se sabe a que horas começa, mas no meio da manhã o volume ultrapassa o chão e chega ao quarto de estudos. A concentração ajuda a abafar até o ponto em que o som cresce mais uma vez. Fazer almoço nem é tão saboroso e as cenas de romance dos filmes trazem batida de funk. O dia todo assim, da indeterminada hora da manhã até o limite do horário de silêncio à noite.
Para muitos não seria um problema, talvez realmente não fosse para quem olhasse desse modo superficial. O detalhe é a trindade que acompanha. O mau gosto pode ser ouvido longe, uma coletânea com sabor de doce de mamão ao molho pardo. Não bastasse ser ruim, é uma só. Sim, a mulher tem um único CD, ou assim parece, com todas as músicas do final das paradas, aquelas que ficaram no fundinho das listas e só saíram para “O melhor da vizinha de baixo”. E o mais importante, o detalhe mais gritante:
Ela canta. E tem fé, pois canta para alcançar os céus, o que implica passar pelo apartamento de cima.
Um dia o vizinho cansou. Já sabia os ritmos, as letras e a ordem das músicas, conhecia o gosto musical dela e, na política de boa vizinhança, não queria criar conflito. Permitiu-se o benefício da dúvida. Tocou no apartamento de baixo e foi recebido com um sorriso.
- Estava na loja outro dia e vi esse CD, lembrei de você, espero que goste.
Ela sorriu encabulada, parece jamais ter ganhado um presente na vida.
- Mas eu já tenho um. – mostrou a capa do conhecido repertório.
- Este é diferente, não é?
- É... – pegou e saltava os olhos de um disco para outro, pausadamente, enquanto o vizinho afastava-se.
No dia seguinte, como nos demais enquanto ele morou ali, não se ouviu música no andar de baixo.
Gustavo Burla

criado por Hipocondríacos
22:01:41